quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Memórias de Amália: Aqueles bons tempos.

Capítulo I.

Eu estava lá, perdida em meus pensamentos.

Sempre andava pela praça. Essa atividade diária me fazia bem, me tornava mais pura e, já era como um compromisso.
Naquele lugar, que parecia mágico, havia uma natureza esplêndida, muito linda. Eu admirava tal beleza e perfeição; observava com atenção cada movimento dos galhos, das folhas. Aquilo provava que a obra de Deus era realmente perfeita.
Eu estava caminhando e refletindo sobre o momento. Percebi o som maravilhoso, que vinha de todos os lados. Parei, e fechei os olhos. Tirei todos os problemas da cabeça, limpei os pensamentos. Fiquei ali, parada, imobilizada, apenas aproveitando aquele espetáculo ao ar livre. Cada nota, tão suave. E acredite, superava qualquer cantor ou musicista.
Era emocionante presenciar aquilo, e saber que tamanha beleza estava sendo destruída aos poucos; que talvez meus filhos e netos não apreciariam aquele paraíso.
Sim, aquele era o paraíso. E aconteceu como eu temia. As estrelas de hoje, não tem mais o brilho de jóias raras, o som da natureza já não é o som da vida, ele é sinônimo de destruição, o ar... Ah, o ar! Ele não tem mais o mesmo toque, o mesmo acariciar na pele... Não tem mais a maciez de petálas de rosas. Álias, as pétalas de rosas são murchas, e as raríssimas que ainda embelezam esse mundo quase preto e branco, estão por um fio.
Eu, Amália, com meus 92 anos, já vivi coisas que ninguém nunca mais poderá vivenciar. Já tenho pele enrugada, poucos fios de cabelo, e posso me locomover com dificuldade, mas fui e sou mais feliz que muita gente nova por ai. Eu digo, o que muitos já falaram: "essa juventude está perdida". Alguns jovens ainda usam da boa educação, dos gestos de solidariedade, mas são poucos... E mesmo que fosse a maioria - sinto tristeza de pensar nisso, mas é a verdade - eles estão condenados. Sim. Condenados á uma vida suja, de poluição. Onde a falta de respeito lidera.
Na minha época... Ah, naqueles bons tempos da minha juventude... Aquilo sim podíamos chamar de natureza, de obra perfeita. Saudade do amor, das paixões. Do tempo que o rapaz beijava a testa da garota em sinal de respeito, que pedia permissão para os pais, que ao invés de e-mails, como dizem hoje em dia, mandavam cartas, com declarações de amor, versos e poesias. Onde a garota era prendada, respeitava os pais, cozinhava para o namorado, que vinha em sua casa e conversava com o sogro. E o casal trocava olhares, sorrisos. O amor era mistério.
Saudade dos meus 14 anos, de brincar de boneca, do meu primeiro namorado, quem diria que tal seria meu marido! E hoje já falecido, descansa em paz, saudade do meu amor, do meu bem.
Gostaria hoje de ver, minhas netas com os meus 14 anos, vivendo da forma como eu vivi. Gostaria que elas não estivessem condenadas, como toda a juventude.
@_annelis

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