Capítulo IV.
Meus pés tocavam o chão como se fossem a última vez, suspirei, e pensei em todos aqueles que estavam a me esperar. A água esfriava meus pés escaldantes, o vento jogava meus cabelos contra meu rosto e me ajudava a caminhar, minhas lágrimas caiam misturando-se com a água salgada e fria do mar.
Me sentia perdida e vazia. Meu Carlos não estava mais comigo. Havia partido... Para um lugar melhor, era o que eu esperava...
Na sala da casa de praia, estavam todos ansiosos, esperando que eu não cometesse loucuras. O preto dominava o lugar e; o silêncio era melancólico, ouviam-se apenas gemidos de choro, de uma dor que não podia ser descrevida.
Eles não podiam entender o meu sentimento de angústia, de abandono. Eu sabia que ele não me abandonara por vontade própria, que o coração, talvez fraco de tanto amor compartilhado comigo, havia pedido descanso.
Meu velho, faleceu com 61 anos... Na época eu tinha 49, e naquele dia, meu mundo tinha desabado. A última batida do cansado coração de Carlos foi eu quem sentiu, abraçada em meu eterno amor, e eu sabia o que isso significava... Eu teria que viver o resto de minha vida sem ele ao meu lado. Seria eu, capaz de viver sem ele?
Queria ficar sozinha. Fugia de tudo e de todos, e eles me entendiam. Todos da cidade sabiam do tão grande amor e carinho que tinhamos um pelo outro.
Ao sumir, todos pensaram em suícidio de minha parte. E realmente, era o que se passava em meus pensamentos. Em um momento de completo desespero, não via outra solução. Cega, e sem pensar no que meu amado gostaria de ver de mim, busquei vagarosamente com as mãos achar a faca roubada da cozinha de Dona Joana. E foi nesse instante, que aconteceu.
Meus pés que já haviam se acostumado com o frio daquela água, sentiram um calor do qual nunca haviam sentido antes, era como se algo estivesse invadindo meu corpo, que estava todo em torpor, eu não sei dizer se me fazia sentir bem ou mal, não sabia se estava com os pés no chão ou aquela luz forte mas ao mesmo tempo belíssima me fazia flutuar. Estava fechando os olhos e me desligando do mundo. A faca caíra no chão; ou ele havia a tirado de minha mão. Naquele momento quase de completo adormecimento, eu senti suas mãos. Aquele toque, de uma pele aveludada, mas ao mesmo tempo gasta e cansada da vida. Eu o conhecia. Meus olhos abriram em um susto, mas era impossível mexer-me, estava imobilizada de felicidade; ou talvez medo. Virei o rosto e vi aquelas feições, daquele rosto sem igual. Os olhos tão lindos quanto da primeira vez, o sorriso encantador e meigo como sempre. Me sentia protegida novamente, havia achado meu caminho. Não estava mais perdida.
Mas eu sabia que aquilo passaria, ou eu acordaria de um lindo sonho, ou ele teria que me deixar novamente como naqueles romances de "Romeu e Julieta".
Quando eu tentei falar, só saíram meias sílabas de minha boca, ou nem isso. Carlos então, sempre tão carinhoso, botou sua doce mão em meus lábios em sinal de silêncio. Respeitei seu desejo. Ele então deu seu recado:
"Minha querida Amália, o que pensas que está fazendo? Queres perder os muitos anos de vida que tu ainda tens pela frente? Não queres ver teus netos e netas nascerem? Meu amor, por mais que eu quisesse estar junto de ti, não quero vê-la morta, em um velório, com choros e lamúrias a sua volta. Pensa em todas as pessoas que por ti esperam na sala da nossa antiga casa? Eu te amo demais, e jamais te esquecerei, nunca dúvide disso. Saibas que vou estar esternamente ao teu lado, meu espírito vai permenecer contigo até o fim dos teus dias, ou até que eu saibas que a minha bonita moça está bem e a salvo dos males dessa vida. Não te digo adeus por esse motivo, então até logo." Assim, deu-me um beijo em minha testa e desapareceu.
Comecei a sentir o chão novamente, meu corpo já não era mais torpor, a luz havia sumido, tudo havia voltado ao normal. Quando percebi, lágrimas caiam de meus olhos, mas agora eram de felicidade. Eu podia sentir sua presença ali comigo. Percebi que não era a última vez.
Voltei para casa, não contei nada a ninguém. Apenas disse que tinha pensado bastante e estava melhor. Você, é a primeira a quem eu conto isso, então lhe peço, ou melhor, imploro que não conte a ninguém Maria.
Enfim, foi isso que aconteceu no dia da morte de seu avô, e é por esse motivo que até hoje aguento firme nessa vida, e por vocês também, é claro.
Ah minha linda, ele me salvou da morte, existe prova maior de amor do que isso?
Carlos, eu não tenho palavras meu bem, sei que está agora aqui a meu lado, eu te amo e você sabe.
@_annelis
Nenhum comentário:
Postar um comentário